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Um artista sempre atual

Pinturas de cenários naturais do paraense mostram um lado pouco conhecido do artista ao público que visita o Arte Para – Ano Trinta

Em sua trigésima edição o Arte Pará não apenas comemora sua longevidade, mas celebra também os artistas que dividiram suas histórias, trajetórias e inspiração com o salão, emprestando, a cada ano, trabalhos que ajudaram a estabelecer diálogo diversos dentro do contexto da Arte Conteporânea. O Museu da Universidade Federal do Pará (Mufpa), um dos quatro espaços expositivos da edição 2011, apresenta uma dessas homenagens ao mostrar uma série de seis pinturas do paraense Ruy Meira, que revelam uma faceta pouco conhecida do artista, na qual ele retrata cenários naturais.

O legado de Meira encanta não apenas o público que tem acesso aos seus trabalhos em mostras e exposições, mas também os críticos e estudiosos da sua obra. Sua filha, Maria Angélica Meira, se dedicou a estudar as obras do pai e chegou a transformar a arte de Ruy em um objeto do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Para ela, trazê-lo de volta ao Arte Pará reforça a força do acervo deixado por ele. “Esta iniciativa reitera a importância e a representatividade deste artista paraense e, como não podia deixar de ser, do próprio Arte Pará, do qual tantas vezes participou. Desde sua primeira versão, a mostra contou com a participação de Ruy que, em suas várias versões, foi por vezes expositor, artista convidado e membro do júri”, diz ela.

Ricardo Resende e Armando Queiroz, curadores da Edição de 30 Anos, reforçam o que é dito por Maria Angélica e confirmam que o trabalho realizado por Meira se confude com a história da Arte no Estado, por ser uma figura central na pintura e na cerâmica desenvolvida na região.

“Como bem disse Paulo Herkenhoff [que foi jurado de seleção e premiação do salão esse ano] expor essas pinturas no Arte Pará não deixa de ser uma forma de “reconhecer o papel histórico de Ruy par o desenvolvimento da arte no Pará ao longo de cinco décadas, um pouco mais. Do modo com ele foi o tempo todo sendo atual, contribuindo para o presente, sem o sentido de ‘novidadeirismo”. O Ruy não lidava com novidades. Lidava com satisfações, curiosidades, necessidades e desafios”, cita Maria Angélica.

Ruy passou pela pintura, gravura, desenho e gravou seu nome no cenários das artes com a cerâmica escultória. Portanto, trazer esses trabalhos, desenvolvidos nos anos 50 pelo paraense, significa revelar um pouco mais do talento de Meira.

“Estes quadros, todos eles da década de 50 e quando Ruy se iniciava na pintura, participaram das exposições da época e de algumas poucas retrospectivas e servem como testemunho do processo evolutivo da obra”, detalha a filha do artista.

Maria Angélica continua citando Herkenhoff, ao explicar que “é Ruy Meira que se integra e que faz a transição de uma (fase) para outra. Faz a virada moderna e adiante, já numa idade mais avançada, está junto com os jovens. Eu diria que ele mantém uma condição de atualidade. Se fosse caracterizar a obra do Meira em uma palavra diria que é uma ‘atualidade constante’, não uma atualização. É fato de ele estar sempre contruindo a atualidade. Ruy teve uma relação com os desafios que foi trabalhado na vida, uma relação muito intrínseca com as coisas, muito focadas com o momento cultural. Não tinha noção de vanguarda, ele até foi vanguarda para o Pará, mas sem essa intenção. Era muito mais um construtivo de questões, de contruir um ambiente, um discurso, uma pintura”, discorre.

“Enfim, ele tinha plena consciência que essa relação com a cultura cabloca dava a ele um vocabulário técnico, um vocabulário formal, que ele poderia utiliza em uma nova poética, que é a poética da visualidade amazônia. E esse entedimento que torna Ruy Meria o grande diálogo entre Luiz Braga, Emmanuel Nassar e Osmar Pinheiro. Um homem com muito mais experiência, que podia ser pai de todos eles, mas com a mesma condição, com a mesma perspectiva estética. Apenas eles eram mais ligados à cultura urbana, talvez os ribeirinhos, enquanto o Ruy estava mais ligado à origem indígena do caboclo. Acho que ele foi padrão para muitos artistas no Pará, nesse sentido. Ali está espiritualmente o Ruy Meira como uma referência histórica. Porque é Meira quem coloca esta tecnologia da terra a serviço da arte contemporânea no Para”, garante ela.

Texto: Carolina Menezes
Foto: Shirley Penaforte

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