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Paulo Herkenhoff curador do Arte Pará

Paulo Herkenhoff curador do Arte Pará

Ação Educativa

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Ação Educativa

Ação Educativa

Artigo publicado no CADERNO Arte + educação da Fundação Volkswagen em parceria com a Editora Segmento

CONTEXTO SOCIOCULTURAL NAS INTERAÇÕES MUSEU, INSTITUIÇÃO CULTURAL E ESCOLA

Educação para a arte na Amazônia

As questões acerca das condições sociais e culturais relativas a professores e alunos que incitam a construção de interações entre museu, instituição cultural e escola, nos últimos doze anos, têm sido uma das vertentes de minha investigação profissional para os caminhos de construção do conhecimento no contexto das ações educativas nos espaços da arte na Amazônia.

Partindo desse campo de experimentação de formação de educadores como mediadores culturais e de professores da rede estadual e municipal, analiso algumas conjecturas que perpassam os processos de ensino e de aprendizagem em arte, para circunscrever a análise sobre tais interações, que nos dá um perfil sobre as competências socioculturais e artístico-estéticas de estudantes universitários, professores do ensino fundamental e médio, crianças e jovens participantes de exposições de arte. Em adição, busco verificar como se dá a inserção nos espaços culturais e na cidade de Belém, com o propósito de estabelecer processos de inclusão e desenvolvimento humano, além de uma conexão sobre o ensino de arte pautado em referências, a partir do diálogo entre a arte e a vida contemporânea, com o objetivo de travar relações com a produção artística atual.

Vale aqui um recorte para especificar a prática artística de mediação cultural no campo da curadoria educativa que desenvolvo no Projeto Arte Pará. Este Projeto teve origem no início dos anos 1980, pela iniciativa do jornalista Romulo Maiorana de estimular a produção artística local. Atualmente, rumo à sua 33ª edição, o Arte Pará figura entre os projetos mais sólidos e contínuos no cenário nacional, e uma das mais significativas ações de fomento, acesso e difusão artística no país, integrando saberes, instituições de ensino, estimulando a participação de estudantes na construção do conhecimento e viabilizando o acesso à arte a diversas camadas sociais por meio de ações inclusivas.

Com a atuação dos articuladores político-culturais, essas ações adquiriram visibilidade, ampliando o acesso à construção do conhecimento compartilhado com os visitantes, operando de maneira disseminadora sobre grande parte dos receptores envolvidos nas ações  em agentes do conhecimento, que atravessam o cotidiano e ganham os mais diversos espaços, dos mais populares aos mais específicos, como é o caso dos museus.

Rompendo as fronteiras regionais, o Arte Pará se consolidou como um evento que concentra anualmente uma expressiva mostra da produção artística contemporânea no Norte do Brasil. Nos últimos anos, passou a apresentar conexões internacionais, ampliando a compreensão da arte em sua dimensão social e política, contando com convidados especiais. Nesse desenho, o local e o global se colocam em diálogo, revelando, no Pará, as transformações culturais viabilizadas pela arte, esta entendida como expressão que toma lugar na vida dos indivíduos, na cidade, em seus espaços de valor simbólico.

Entretanto, neste texto, problematizamos a questão dos obstáculos aos processos educacionais de mediação cultural no Pará, devido à evidente escassez de teorias da arte (e da cultura em geral) para a forma de organização administrativa, política e social instituída neste estado. Ressaltamos que o Pará é um estado que carrega o estigma de ser periférico, tanto no panorama cultural quanto econômico, em relação aos centros culturais/econômicos do sudeste do Brasil.

É importante fazer uma apreciação cuidadosa acerca da apropriação das teorias (geralmente eurocêntricas) sobre o sistema da arte paraense, que afeta artistas, educadores, intelectuais, entre outros articuladores da cultura. Estas condições periféricas da arte (enquanto conhecimento) em relação a outras áreas da ciência, às condições econômicas e culturais dos centros hegemônicos no país, têm gerado reflexões relevantes, que orientam na percepção da nossa condição de educadora na Amazônia. Orlando Maneschy (2010:11) reforça esta reflexão:

Belém é fincada na floresta e manteve estreita relação conexão com a Europa, o que garantiu a circulação de bens culturais que, somados à vivência do habitante do lugar, constituíram procedimentos de mestiçagens culturais, que se desenharam entre o contato com o continente europeu e a falta de integração nacional. Diante desse contexto de isolamentos e fluxos, as particularidades de viver a região manifestam-se de forma particular na experiência estética dos artistas que habitam a Amazônia e operam sistemas paralelos de arte, que ora os coloca também em proximidade com o resto do mundo, ora os mantêm desvinculados do trânsito operado no Centro-Sul do país, gerando, por vezes, instabilidade na produção tanto artística, quanto de projetos institucionais para a arte.

O que se constata na produção contemporânea paraense, ao verificá-la na perspectiva dos territórios multifacetados, é que a arte contemporânea local se estrutura de uma forma provavelmente única, devido à ausência de um mercado de arte consolidado, o que resulta em discussões autorais e práticas artísticas e educacionais legitimadas, distintas dos modelos ditados pelos centros culturais predominantes do Brasil.

A delonga do Pará em relação às práticas da arte contemporânea e processos educativos é estabelecida de acordo com obstáculos econômicos da região – levando-se em conta a distância geográfica como um dos fatores que dificultam a inserção de recursos na educação e na cultura, e impedem que a produção artística e educacional se desenvolva num ritmo semelhante dos grandes centros do país.

Outro problema que enfrentamos é referente à educação formal, que não tem chamado muito a atenção dos pesquisadores. Ressaltamos a política educacional como a mais questionada, certamente por tratar-se de um processo sobre o qual são deduzidas uma série de intenções, ações e comportamentos na busca das funções legítimas de governo. É possível afirmar que estudos e investigações têm, em suas perspectivas, o enfoque da educação no Pará como objeto de garantia e proteção, por parte estado, na gestão da educação. Entretanto, há carência de conhecimentos acumulados sobre este tema.

Atualmente, na Diretoria de Ensino Infantil e Fundamental (DEINF), da Secretaria de Estado de Educação (SEDUC), vivencio o processo de atualização do currículo de artes para as escolas, e constato que a produção artística no Pará não é dependente da educação formal, apesar de fortalecer e aliar referências com a área.

Devido à posição de periferia político-econômica deste estado necessitar de um sistema de educação formal voltado para a arte, equiparado aos dos centros desenvolvidos do país, a situação torna-se mais difícil e nos coloca sempre em estado de alerta. Entretanto, as instituições educativas, museus, galerias, meios de comunicação, associação de artistas e outras iniciativas de instituições particulares fomentam um solo cultural no qual a produção artística nos indica um caminho de amadurecimento.

Lembramos que a troca cultural sempre será dinâmica, no entanto, a desigualdade persiste. O Pará necessita fortalecer uma política de arte-educação e mediações culturais. Verifica-se que a educação não é uma atividade neutra, mas se desenvolve no sentido de atender às necessidades de determinados grupos. Como exemplo, as exposições que circulam no âmbito nacional, quando vêm a Belém não incluem a formação de mediadores, e se contratam estudantes que se preparam apenas para os conteúdos das mostras. Alertamos que não cabe mais somente abrir uma exposição renomada nos museus de Belém, atribuindo ao público em geral e às escolas um mote de democratização, pois assim entra em contradição com o que estamos desenvolvendo no Pará: o combate ao discurso da elitização e os dados quantitativos quanto ao número de visitantes como objetivo pontual. Interessa-nos o processo qualitativo no processo educacional.

Arte Pará na construção da interação entre museus, escolas e a cidade

Em 2007, a convite de Alexandre Sequeira, artista visual e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), integrei a equipe da Fundação Romulo Maiorana (FRM), como coordenadora da Curadoria Educacional do Projeto Arte Pará. Foi um duplo desafio: primeiramente, tive que preparar estudantes de artes das universidades para a mediação cultural nos museus, e escrever a edição especial de “O Liberalzinho Arte Pará”. Essa função contribuiu e ampliou a pesquisa sobre Arte Contemporânea, e resultou na significativa aceitação do encarte no processo de difusão no período expositivo do projeto. O Liberalzinho é um encarte especial veiculado no segundo domingo de outubro, quando se comemora o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, no dia de maior tiragem do jornal “O Liberal”,  que circula e toda a região amazônica. É direcionado para o público escolar e distribuído nos espaços expositivos do Arte Pará durante o período expositivo (outubro a dezembro), como mídia pedagógica de cunho jornalístico. A tiragem extra é de 5.000 exemplares (<www.frmaiorana.org.br>).

Neste contexto, o crítico de arte e curador geral do Arte Pará, Paulo Herkenhoff, que está no projeto há mais de uma década – inclusive na 33ª edição (2014) – e tem observado o contexto da arte no país, com olhar especial para a região Norte, legitima a ação educativa e amplia as ações, ao afirmar no Catálogo Arte Pará (2007:10). Consultar catálogos em (<www.frmaiorana.org.br>).

Em 2007, o Arte Pará adotou uma nova metodologia para as relações entre arte e educação, que é um modo de garantir e qualificar o direito da cidadania ao acesso à cultura. O salto qualitativo é imenso. No mundo contemporâneo de escassez e da necessidade de incorporar crescentemente a população nos benefícios da educação e da cultura, não é possível pensar exposições sem a correspondente responsabilidade no processo da educação. É uma responsabilidade de curadores, diretores de instituições e produtores de eventos. Neste Arte Pará, coube à Vânia Leal implantar uma proposta dialógica e definir a experimentação da metodologia no processo de mediação da relação com a arte. Para tanto, houve mudanças expressivas no preparo do material educativo e na formação de 36 mediadores provenientes da Universidade Federal do Pará, Universidade da Amazônia, e Escola Superior Madre Celeste. Este serviço, endereçado, sobretudo, aos estudantes do sistema de educação pública, tem a cooperação do projeto Arte Pará na Escola da UFPA. Assim, a FRM, que mediou o processo inicial para implantação do convênio Instituto Arte na Escola na UFPA, passa agora a se beneficiar dessa colaboração. A editora do Jornal O Liberal e seus jornalistas, com um empenho raro no periodismo brasileiro, assumiu um papel decisivo na constituição do público Arte Pará. O caderno Liberalzinho tornou-se um paradigma de como uma publicação para o público infantil pode promover o processo de integração da arte no sistema educacional com uma orientação pedagógica sólida, e envolver o imaginário da criança.

Ao longo desses anos, o contato com Herkenhoff me faz perceber que estou sempre no meio do caminho, em constante processo. Trabalhar em uma plataforma da arte contemporânea me fez buscar pontos importantes para conhecer as ambiências contemporâneas. Fez-se necessário perceber as partes de um todo, porque o educativo é um segmento que instaura o debate entre agentes, promove diálogos que pressupõem vozes de sujeitos que propõem essa plataforma coletivamente. Então, venho conduzindo uma ambiência em que o outro sempre contribui para as ações.

Desde as edições anteriores do Arte Pará venho trabalhando com o intuito de fortalecer as ações educativas, mas foi a partir da ampliação para a promoção, discussão e formação acerca da experiência artística contemporânea que acredito estar contribuindo na sistematização de um trabalho qualitativo junto aos educadores que fazem a mediação nos espaços expositivos, por meio de parcerias com instituições de pesquisa e culturais de Belém, e na inter-relação e proposições educativas com escolas e professores. Essa dinâmica nos coloca em constante estado de atenção para promover uma reflexão sobre a educação nestes espaços, e suas diferentes formas de elaboração.

Em 2005, Paulo Herkenhoff, ao expandir os espaços expositivos para além das salas convencionais do “salão”, ocupando as instituições que formam o sistema de arte no estado do Pará, fortaleceu o diálogo e a troca interinstitucional. Assim, o Arte Pará passou a ocorrer no Museu do Estado do Pará, Museu Paraense Emílio Goeldi, Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, Museu de Arte Sacra e também em espaços expositivos não convencionas, como o Complexo do Ver-o-Peso, o Mercado de Carne, a Ilha do Combu e a própria cidade, pelos aspectos históricos, sociais e culturais. Neste contexto, alia o rompimento com as hierarquias entre os participantes e propõe um grande espaço de interações entre obras de artistas convidados e inscritos, reforçando os efeitos dos núcleos de discussão observados a partir do processo de seleção. As obras se associam não por classificação de premiação ou pelo reconhecimento do artista no circuito nacional, mas por aproximações conceituais e propostas semelhantes ou opostas.

Marisa Mokarzel (2011:6), complementa:

Na pluralidade da arte contemporânea, na infinidade de conceitos e técnicas há, sem dúvida, uma matriz dominante, que mesmo efêmera e sujeita a rápidas mudanças, dita uma determinada postura, uma determinada tendência. A arte guia-se pela arte hegemônica presente em países como Alemanha e Estados Unidos. Mas, sem dúvida, na difusão dessas fontes, formam-se relações que fogem ao controle da malha informativa, fazendo com que os nós das tramas se contaminem, e as idas-e-vindas sejam também uma realidade. Apesar de existir uma dominância, é possível se interagir com o que vem de fora, sem perder determinadas especificidades.  Não há pureza para ser resguardada, é nas misturas que se mostra a diferença e se vê a diferença do outro.

Como já citado, a articulação entre artistas, teóricos, educadores, instituições e o público tem o propósito de contribuir para a consolidação de um sistema de arte que vive à margem dos centros culturais hegemônicos.  Propositalmente, Herkenhoff repensou um formato para que o Arte Pará pudesse ser definido “como um fórum de debate e reflexão”.  A ideia de “salão” foi mantida como forma de proporcionar a entrada de jovens artistas neste circuito.

Remeto-me, em particular, a este histórico e à sua decisão de promover o debate e a reflexão, por comungar este procedimento que nos envolve com as instituições culturais e de ensino da cidade nas ações, reforçando uma característica do meio cultural local, na união de forças pelo objetivo comum de aliar a mostra competitiva, ciclos de seminários, palestras, programações de outras instituições, formação de professores e mediadores culturais, bate-papos com artistas no espaço expositivo, workshops com críticos, curadores, artistas, pesquisadores, educadores de Belém e de outros eixos do país, além de conferências abertas ao público, visando ampliar as discussões impressas nas mostras, estendendo as ações a quase toda a cidade, num formato de festival de arte.

Em sua 27ª edição, em 2008, o Arte Pará estabelece um sistema de relações ao organizar mostras no interior do estado do Pará. Deslocamo-nos para Santarém, localizado no oeste do Pará. Outro município foi Marabá, pertencente à mesorregião do sudeste paraense.

A extensão das ações para esses dois municípios deu-nos indicativos para a elaboração de um eixo educativo específico e gerou reflexões acerca do fazer artístico, da circulação e do papel social da arte, em ciclos de seminários e oficinas, envolvendo universidades e escolas de ensino fundamental e médio.

Juntamente com o grupo de professores, foram pensadas questões sobre o ensino de Artes nas escolas e nas universidades que formam professores e reprodutores de uma arte-educação que não coaduna com a realidade das escolas e de seus alunos; dos bairros da cidade e de seus moradores. Reforçamos que os saberes universais não devem ficar em sala de aula, mas há necessidade de atravessarem o contexto cultural. Para Hernandez (2000 apud Iavelberg 2006:31),

[…] compreender e comunicar-se vai além da aprendizagem de saberes por meio da memorização. Trata-se assim da aplicação ou uso de conhecimentos e trabalho com resolução de problemas. Nesse sentido, desenvolver estratégias para compreender a cultura visual e ter a compreensão crítica das obras em conexões promove a aproximação com as imagens de todas as culturas”.

Dessa forma, organizamos projetos de trabalho ressaltando as competências, habilidades e valores em articulações, evidenciando o significado social e o sentido das obras em consonância com a cidade. E foi muito interessante, porque na exposição tinha uma instalação de Marconi Moreira (Alcance, 2007-2010), que vive e trabalha em Marabá, mas participa de diversas exposições pelo país e no exterior (ver as obras do artista em: <http://marconemoreira.blogspot.com.br/>). Sua obra abrange várias linguagens, como pinturas, esculturas, vídeos, objetos, fotografias e instalações, a partir da cultura visual amazônica, utilizando restos de madeira, velhos barcos e caminhões, isopor – recipiente muito usado para transportar peixes, camarões, açaí congelado, e outros alimentos levados nas viagens.

A discussão no grupo foi surpreendente, porque a maioria dos professores envolvidos rejeitava o trabalho do artista, e não entendia como pedaços de madeira podiam estar em uma exposição de arte. Porém, a partir da pesquisa na orla, acompanharam o processo da pintura nos barcos, a tipografia e os outros elementos que fazem parte da materialidade do artista, e estão imbricados na cultura local.

A partir da percepção desse movimento na cidade, aliado ao trabalho do artista, os projetos de trabalho ganharam um forte sentido social, histórico, artístico e crítico. Aliamos o resultado aos três eixos criados por Hernandez: conhecimento para a compreensão de mundo, desenvolvimento físico e desenvolvimento criativo. Para Adainton Junior, professor da rede estadual, o processo de formação para arte contemporânea contribuiu para a percepção do espaço natural ribeirinho, movimento das marés, e o quanto esses ambientes e os objetos do cotidiano na composição da cultura visual fazem parte da arte contemporânea.

Enquanto educadora na Amazônia, constato, que essas questões atravessam não somente o campo da medição cultural, mas, os caminhos da crítica das obras, em conexão e aproximação entre todas as culturas. Acredito que a arte na educação e no processo de ensino e de aprendizagem de educadores é vital para conceber uma melhor relação com o seu meio, e levá-los à amplitude de outros universos, tornando-os mais criativos e críticos sobre as suas realidades.

Para muitos docentes e discentes que participam do processo de formação no Projeto Arte Pará, o contato com os museus se dá como uma primeira experiência. Esse fator é significativo a cada edição, pois o contato direto com a obra, ganha sentido para as famílias dos envolvidos, suas escolas, comunidades e para a sociedade em geral.

A educação acontece dentro das salas de aula, mas também fora delas, num constante diálogo entre espaços de educação formal (sala de aula) e não formal (em Belém, nas suas ilhas, interior do estado, espaços culturais e museus). Temos como premissa a educação como um direito garantido por lei a todos os sujeitos, e convencionado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Comungamos, ainda, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que estabelece a responsabilidade do cumprimento desse direito à família, à comunidade em geral e ao poder público.

Aliado a este contexto, reiteramos a necessidade de a educação intercorrer ao longo de toda a vida, atravessando as relações das esferas sociais e as instituições que as representam, aliando qualitativamente a educação formal e a não-formal desses atores sociais. Consideremos, assim, que o professor ganha autonomia no processo de formação ao elaborar o seu projeto para desenvolvê-lo com seus alunos nos museus. Ele exerce o papel de curador educacional ao selecionar as obras e o contexto, e passa a ser protagonista, juntamente com o mediador cultural, fortalecendo a interação professor-aluno.

Antoni Zabala (1998) ressalta o valor das relações que se estabelecem entre os professores, alunos e os conteúdos no processo de ensino e aprendizagem. Para o autor, essas se sobrepõem às sequências didáticas, visto que o professor e os alunos têm um grau de participação nesse processo, diferente do ensino tradicional, caracterizado pela transmissão/recepção e reprodução de conhecimentos. E examina, ainda, dentro da concepção construtivista, a natureza dos diferentes conteúdos, o papel dos professores e dos alunos, e a sua relação neste processo, visto que o professor necessita diversificar as estratégias, propor desafios, comparar, dirigir e estar atento à diversidade dos alunos, estabelecendo uma interação direta entre eles.

São tantos os caminhos, mas estamos aprendendo a lidar com esse fluxo de necessidades e de possiblidades da educação, com objetivo de transformar as ações em projetos executáveis. Nessa concepção, o construtivismo foi eleito como uma das proposições metodológicas, visto que a plataforma contemporânea pressupõe um sistema no qual tudo deve ser acessível à experimentação, aliado aos conhecimentos prévios e, à aprendizagem significativa.

O Arte Pará, ao longo dos seus 33 anos, instaura um grafo na Amazônia e apresenta um campo a partir do qual falam o artista, o educador, o crítico, o curador, o mediador, o aluno e o grande público. Reiteramos, a cada edição, a nossa organização com os agentes, com os corpos que se relacionam com o pensamento contemporâneo, que nos provocam para ficarmos atentos não a um quê, mas à maneira como se comportam quando associados ao pensar a arte.

Estamos envoltos num sistema que exige um posicionamento distinto daquele que prevaleceu até recentemente. Se até a primeira metade do século XX conseguíamos definir estilos e modalidades como pintura, desenho, gravura, escultura, colagem, hoje a Arte Contemporânea amplia seu campo de atuação, pois ela não trabalha apenas com objetos concretos, mas principalmente com conceitos e atitudes e realiza um mix de vários estilos, diversas escolas e técnicas. Não há uma mera contraposição entre a arte figurativa e a abstrata, pois dentro de cada uma destas categorias há inúmeras variantes.

O sistema e o nosso lugar nos dão a percepção de um constante deslocamento na condição de formadores de situações não habituais. Estamos sempre beirando a dúvida, não sendo possível esterilizar um pensamento e nos deter a apenas em um único método ou proposta educativa senão, corremos o risco de clicherizar-nos.

Tudo isso pode significar um passo adiante para direcionar a aprendizagem nos espaços da arte, entendendo que é necessário fazê-lo sem manipular, conforme elucidam Paulo Freire e Sérgio Guimarães (1987:19):

[…] o esforço da leitura da realidade através da codificação que representa um pedaço da realidade, era uma leitura manipuladora, dirigida. Ora, dirigida sim, pois não há educação sem intencionalidade, sem diretividade. Manipuladora nunca, […] mas defender uma posição com que se sonha, antes mesmo de chegar ao educando, é absolutamente legítimo.

E complemento: em nossa proposição não existem respostas precisas, uma vez que os caminhos são diversos, induzindo-nos a pensar: Onde começo? Onde paro? Qual o fim? Este fato nos fala acerca de uma relação do presente, passado e futuro das aprendizagens do público participante, e cria zonas de ações em condições que não estão prontas. Na recepção estabelece-se um aqui e agora, mas certamente as bases da arte-educação na contemporaneidade estão presentes em seu campo de incertezas, permitindo múltiplas propostas de ensino com múltiplas linguagens. A arte muda e o público também. A dúvida é inaugurada e promove o conhecimento, e nos assegura uma das incumbências da arte: fazer-nos pensar, em constante estado de atenção.

Referências

AMAZÔNIA, A ARTE. “Catálogo de Artes”. Curadoria de Orlando Maneschy. Consultoria de Paulo Herkenhoff. Rio de Janeiro: Imago, 2010.

FREIRE, Paulo & GUIMARÃES, Sérgio.  Aprendendo com a própria história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

HERNANDEZ, F. “Cultura Visual, mudança educativa e projetos de trabalho, 2000”. In: IAVELBERG, Rosa. O desenho cultivado da criança: prática e formação de educadores. Porto Alegre: Zouk, 2006.

MOKARZEL, Marisa. “Palestra”. In: Ciclo de Oficinas e Palestras do Arte Pará 2011. Curadoria Educacional de Arte e Educação de Vânia Leal. Belém: Fundação Romulo Maiorana, 2011.

ZABALA, Antoni.  A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1998.